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Bruna Miranda

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A jornalista Bruna Miranda é o tipo de profissional que impressiona pela consistência de seu trabalho assim como pela abrangência dele. Super atuante no movimento slow, é uma das responsáveis pela representação da ONG Fashion Revolution no Brasil (que incentiva a sustentabilidade e ética na indústria da moda em 75 países), fundadora do Review Slow Lifestyle e colaboradora de diversos veículos de comunicação, escrevendo sobre moda consciente e sustentabilidade. Sempre envolvida em produções em BH, onde reside, Bruna apoia diversas  ações criativas e inovadoras que visam melhorar nossa relação com o meio ambiente, com as pessoas ao nosso redor e com nossos objetos de consumo. Confira abaixo nossa entrevista:

SC: Como começou seu envolvimento com o movimento Fashion Revolution e qual seu papel nele, sendo uma de suas representantes no Brasil?

BM: Começou em janeiro de 2014. Na época, eu escrevia sobre moda e estilo de vida conscientes no site Exemplar id e, fazendo algumas pesquisas, fui parar no site da campanha. Vi que alguns países já contavam com sua equipe e entrei em contato para saber mais informações sobre suas atividades no Brasil. A Carry Somers, uma das fundadoras do Fashion Revolution, me apresentou via email à Fernanda Simon, que estava morando em Londres já com data marcada para voltar para cá. Começamos a conversar e já a programar ações para trazer de vez o movimento para o Brasil. A Fernanda é a coordenadora geral da campanha no país e eu atuo na área de comunicação. Também produzo algumas ações, principalmente aqui em Belo Horizonte, onde moro. Depois, a equipe ganhou mais duas integrantes muito queridas e competentes para o movimento, a Eloísa Arturo, que é estilista, e a Cibele de Barros, fundadora do projeto Tecido Social.

SC: Como você julga a resposta dos brasileiros a essa campanha? E ao movimento slow como um todo?

BM: Sou otimista e a vejo positivamente. Por ter apenas 1 ano e 8 meses [da atuação da ONG aqui], considero que o crescimento tenha sido rápido. Posso citar como exemplos o Fashion Revolution Day, que, no ano passado, contou com uma atuação apenas online, e, mesmo assim, já com participação de muitas pessoas e até profissionais renomados da moda no Brasil. Nesse ano, a data contou com 15 eventos em 12 cidades brasileiras. Além disso, foram vários outros acontecimentos como palestras, desfiles, mesas redondas e etc, por todo o país. Temos algumas parcerias e atividades muito interessantes a caminho! A resposta das pessoas à campanha é um indicativo animador, principalmente no que diz respeito ao crescente reconhecimento da importância dessa conscientização, para que gere mudanças de paradigmas e traga ações concretas, para que toda a indústria da moda possa caminhar, lentamente mas com consistência, rumo à ética e sustentabilidade – ambiental, social e até cultural. Mudanças que precisam vir de governos, empresas, mídia e do próprio consumidor. Já podemos sim observar como o assunto vem ganhando força e espaço. Uma ajuda excelente também veio com o documentário The True Cost, que relata de maneira muito clara e completa o que está por trás das roupas (baratas) que consumimos com tanto apetite.
Em relação ao movimento slow [aqui no Brasil], sinto o mesmo, ainda que um pouco mais discretamente. O bacana é perceber como os conceitos do slow já englobam áreas das mais variadas, dentro do estilo de vida. O movimento começou pela alimentação e já chegou no sentido de uma vida mais plena e desacelerada, na moda, beleza, viagens e até jornalismo, design, sexo e etc… A própria sociedade já caminha para esse sentido. Novamente citando o “lentamente mas com consistência”. Porque não se trata de uma tendência que está chegando, vai fazer um barulho e sumir, como as que estamos acostumados. Essa efemeridade não cabe no slow porque ele faz parte de um movimento de comportamento. Já percebemos e temos provas mais do que suficientes e concretas de que, do jeito que está, não dá mais. Do jeito que veio caminhando até chegarmos aqui, não deu certo, em tantos aspectos. Precisamos retornar a valores essenciais e simples. Nisso entra tudo o que o sinaliza o conceito slow, vindo do fundador do Slow Food, Carlo Petrini, do bom, limpo e justo. Precisamos rever hábitos e costumes, para que sejam mais respeitosos e cuidadosos com todas as pessoas, com nós mesmos, o meio ambiente e os animais. Voltarmos para dentro de nós mesmos para encontrar nossa paz e felicidade que são buscadas, freneticamente e ilusoriamente, através do consumo, fama, dinheiro e excessos em geral. Precisamos de equilíbrio e inovações que nos levem a essa mudanças. E muita gente, e muitos estudos, empresas e iniciativas, já se deram conta dessas questões, para nossa felicidade, né? Creio ser realmente o caminho do futuro, com uma turbulenta fase de transição.

SC: Não é fácil desacelerar em uma sociedade que parece sempre buscar a velocidade. Em sua opinião, quais os maiores obstáculos que atualmente precisamos negociar em prol de uma vida com mais qualidade?

BM: É verdade. Acredito que o mais difícil é conseguir conciliar o nosso tempo. Tempo e silêncio são realmente as coisas mais luxuosas de nossa vida atual. Penso que o ideal é a busca por um equilíbrio. Refletir no que realmente vale a pena e tentar ir eliminando o resto. Claro que falar é sempre muito mais fácil, mas vejo como um benéfico exercício diário. Acho que os obstáculos a uma vida com qualidade são os excessos: de informação, barulho, demandas, cobranças, publicidade, os padrões irreais que nos são impostos…

SC: Como você acredita que podemos tirar o maior proveito das novas tecnologias, sem que elas nos atrapalhem mais que ajudem?

BM: Criando hábitos saudáveis de uso. Cada um tem a sua visão, então penso que essa escolha é pessoal. Como eu trabalho também via internet, se deixar, eu sempre vou ter o que fazer online, seja ler, escrever, pesquisar, até porque eu adoro tudo isso. Então, duas coisas funcionaram: tento, na medida do possível, me desconectar entre 21h e 9h e durante qualquer refeição – principalmente se for acompanhada – e nos fins de semana também, pelo menos por alguns períodos. Porque a internet traz muita coisa boa e útil, mas o bem estar que momentos offline proporcionam são inigualáveis, né?

SM: Você tomou a decisão de reduzir seu consumo em redes fast fashion a zero.  Fale-nos um pouco, como essa decisão ecoou na sua vida?

BM: Essa decisão de não comprar mais em fast fashion veio depois de começar a compreender melhor tudo o que se passa por trás das roupas que compramos nesse tipo de loja, tanto socialmente quanto ambientalmente e culturalmente (não apenas essas, incluo aqui marcas que atuam fora da moda rápida mas que, comprovadamente, utilizam mão de obra exploratória). É algo pessoal, eu não me sentiria bem investindo, de novo, o meu dinheiro onde sei que há tanta tristeza escondida. Por ganância. Sei que não vai resolver o problema, claro, e não digo que o boicote seja a solução, já que o problema é bem mais complexo e cada um faz a sua escolha de acordo com o que mais lhe convém. Mas prefiro apoiar quem eu sei que se esforça para agir diferente. Marcas menores, comércio local, marcas que buscam soluções e inovações éticas e sustentáveis, brechós, costureiras e etc (parece que não, mas temos sim opções para um consumo mais consciente, e, felizmente, a cada dia mais!) E eu passei pela experiência, a vida toda, de gastar um montante de dinheiro nessas roupas de baixa qualidade, que, se pudesse voltar com a mentalidade que tenho hoje, teria investido em menos peças, mas muito melhores, e roupas que estariam comigo até hoje, e por ainda mais tempo pela frente.

SC: Quais seus projetos, atuais e futuros?

BM: Atual e futuramente, espero continuar com o Review, que, com as pessoas incríveis que fui me identificando pelo caminho, acabou se tornando uma plataforma pela qual só tenho a agradecer por tantas possibilidades de vivenciar esse tema [slow lifestyle]. Além de ser uma área especial, ela tem sido muito generosa em ações e experiências. Citando algumas, está a caminho o Guia Slow Lifestyle, que vai ser impresso em uma gráfica sustentável, e o retorno de roupas produzidas através do upcycling. E também continuar com o Fashion Revolution para que, com todos juntos, a campanha possa continuar atuando e se fortalecendo para o caminho da moda em direção ao enorme potencial que tem para ser uma força benéfica. Para o futuro, acho que continuar nos inspirando e fazendo a nossa parte para incentivar o consumo consciente e o estilo de vida slow, e seguir nossos propósitos apoiando essa nova economia incrível que vem chegando e já mudando paradigmas.

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